quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Entre Chaves

ENTRE CHAVES Pousei a “tralha” no alpendre. As chaves, essas há muito permaneciam na mão direita, na indecisão de abrir ou não, aquela porta. Por detrás o vazio, o vazio cheio de vivências. O vazio onde imperava a saudade de todos os momentos. O vazio das traquinices dos filhos, da imponência da avó Rosa Maria e do autoritarismo do avô Álvaro. Por detrás daquela porta havia a morte já vivida. Olhei ao redor, o jardim, outrora florido e bem cuidado pelo velho Augusto, o jardineiro que já habitava aquele espaço desde o tempo em que o avô ainda corria e brincava nele, espaço agora era uma desolação onde imperavam as ervas daninhas. A fonte do anjinho, no meio do lago onde me divertia a olhar os peixes coloridos e brilhantes e me encantava ao ver reflectida a minha sombra, parecia u fantasma de verde vestido. O musgo e o verdete faziam parte da “minha” fonte. Olhei a minha mão direita, o que fazer com aquelas chaves?! Hesitei, talvez por medo, talvez por saudade, talvez por desilusão, talvez, sei lá porquê. A minha “tralha” não passava de uma mala velha que outrora tivera marca, a tal etiqueta que agora detesto, pela vaidade que impera ao revelar o nome da marca, mesmo que o conteúdo da marca, seja apenas isso mesmo, uma “marca”, Voltando à minha “tralha”, uma mala cheia de nada, roupa já usada e sem graça, a única que me restava num dos muitos guarda-roupa espalhados pela casa grande onde tinha vivido feliz com Miguel. Nos restantes apenas exista a tristeza de um negro enlutado. Miguel, o seu amado marido, era um homem maravilhoso, que sabia dizer não sem perder a educação, a compostura e o sorriso franco que o caracterizava, um marido. Um amigo. Um pai extremoso sem contudo vacilar nos seus princípios de educação e obediência. No fundo da mala a única recordação que me acompanhava e fazia questão que regressasse àquela casa, uma moldura em prata, com a fotografia da família; os avós, os meus queridos pais, eu, tu e os nosso filhos ainda bebés, o Rodrigo e a Cristina, aos pés do avô Álvaro estava deitada a Nany uma cadela de raça labrador, que veio para a família com apenas três meses e ficou até ao final dos seus dias, com quase quinze anos de vida. Esta fotografia fora tirada num dia de imensa felicidade, foi no dia do baptizado da nossa princesa, tinha apenas seis meses. O príncipe com três anos de idade, segurou a vela da irmã com a consciência do que estava a fazer, sabia que a partir daquele momento ela ficaria mais boazinha, até podia chorar menos e deixá-lo chupar na chucha dela. Recordações que ficam de momentos que não voltam. Os avós partiram pouco tempo depois desta cerimónia religiosa, em que consagramos a nossa menina à luz do Senhor, já tínhamos feito o mesmo ao nosso príncipe quando ele tinha sete meses deidade. Também foi um dia inesquecível. Também nesse dia houve a fotografia da família, mas nessa faltava a princesa. Os meus pais, o tempo e as doenças também os levaram. Ficámos nós e os nossos filhos. A casa tornou-se grande, faltavam quatro elementos, mas continuava a ser vivida com muito amor. Os meninos cresceram, deixaram de saltar e brincar, tornaram-se adolescentes e como todos os adolescentes tiveram os seus momentos de revolta, de tentativa de autoritarismo, de se considerarem os maiores, mas o pai com o seu bom senso conseguiu sempre levá-los para o bom caminho, tornando-os uns jovens ajuizados e que ao fim e ao cabo, poucos problemas nos causaram. O Rodrigo estudou engenharia química, após acabar a formatura foi estagiar para os Estados Unidos, para New Jersey, e por lá ficou, casou com uma jovem belga que também foi para lá estagiar, na mesma área de engenharia. O Miguel ressentiu-se muito com a ausência do filho, dedicando-se ainda mais à Cristina, que estava a tirar o curso medicina, em Coimbra. Ir e vir a Coimbra era mais acessível do que ir para a América, assim, os fins de semana, feriados e as férias, eram passados entre Lisboa e Coimbra, matando assim as saudades da nossa filha. Foi nesse tempo que resolvemos comprar uma casa mais perto de Coimbra, a “nossa” casa. Mudámo-nos de malas e bagagens, como se costuma dizer, mas pouco levámos, aqui ficou o passado, lá construímos o presente pensando no futuro. E compramos na Figueira da Foz, perto do mar. a nossa primeira e única casa, esta já estava vazia. Quando o Rodrigo vinha a Portugal, o que raramente acontecia, pois a vida profissional absorvia-o em demasia, embora a minha nora fosse belga, e adorasse Portugal por tudo o que bom temos, desde a gastronomia, às nossas areias banhadas pelas águas salgadas do oceano, também ela tinha muito pouco tempo livre, era na casa da Figueira da Foz que permaneciam. Horas e dias de felicidade intensa. A Cristina terminou o seu curso e tornou-se voluntária na Cruz Vermelha Portuguesa, depois passou a integrar um grupo de médicos da AMI, onde conheceu o homem da sua vida, o companheiro que tinha o mesmo curso e fazia parte do mesmo grupo de médicos da AMI. Um dia foram destacados para ir para África, aceitaram e partiram. Este foi o pior dia das nossas vidas, a nossa menina ia para tão longe e sabe-se lá o que iria acontecer. Miguel ficou completamente transtornado, a sua menina, a princesa, ia para um país longínquo e em guerra, o que iria acontecer com ela? Miguel ficara órfão muito cedo, ainda pequeno, os pais morreram num acidente de carro, quando viajavam para Espanha, para uma reunião de trabalho, um carro desgovernado embateu de frente no deles, e tiveram morte imediata. O outro condutor tinha adormecido ao volante, nem se apercebeu do que provocou, pois também ele morreu. Miguel, filho único, ficou aos cuidados de uma tia, irmã da mãe, que o educou como se seu filho fosse, deu-lhe tudo o que podia e fez dele um homem honrado e bem visto por todos os familiares e amigos. Mas Miguel não aceitou a morte prematura dos pais, foi um trauma que o acompanhou pela vida fora. Encontrou em mim a mulher, a amiga e a mãe. A ausência dos filhos estava a destruir o seu coração e a mente de Miguel, embora eu fizesse de tudo para amenizar aquela dor, via-o a definhar de dia para dia. Recusava-se a sair de casa. Recusava-se a ir ao médico. Recusava tudo o que o poderia ajudar a viver. Até o mar que ele amava, recusava a ir ver. Nunca mais fomos fazer a nossa caminhada pelo paredão. Nunca mais fomos ao cinema, ou ver uma peça de teatro. Nada do que gostava o fazia sair de casa. O nosso médico e amigo, o doutor Alberto de Sousa, estava a par da situação e um dia em combinação comigo, bateu-nos à porta, a Suzete foi abrir e eu fiz um grande espanto, como se não soubesse da sua visita. sentámo-nos e a conversa fluiu normalmente. Pensei que seria melhor ausentar-me para que Miguel se libertasse e revelasse a Alberto todos os seus temores, tudo o que o fazia estar em constante depressão e aceitasse depois, os conselhos do amigo e até a medicação que este achasse conveniente para o seu quadro clínico. Saí sorrateira com a desculpa de ir à casa de banho e deixei-os a sós, um com o outro. A conversa foi longa, prolongou-se pela tarde e a hora do jantar avizinhava-se, mas eu não queria interromper o que tinha custado tanto a conseguir, o encontro com o medico, o doutor Alberto Sousa, nosso amigo há longos anos, talvez desde que nos mudámos para a Figueira da Foz. Neste impasse, sem saber o que fazer, eis que a porta do salão se abriu e surgiram os dois de sorriso franco e aberto com o braço por cima do ombro um do outro. O meu coração sorriu de felicidade, tinha sortido efeito aquela conversa. Convidei o doutor Alberto para jantar connosco, ao qual ele aceitou de imediato. Há muito que não via o meu marido sorrir e naquele jantar e no serão que se seguiu ele sorriu e foi feliz. Os dias passaram e aos poucos a minha esperança desvaneceu-se, o Miguel voltou ao seu estado triste e melancólico. Quase não saia do escritório, até para fazer as refeições era difícil convencê-lo. O banho, que era um momento que ele adorava, quase sempre cantando um fado de Zeca Afonso “Saudades de Coimbra”, desde sempre fora este que escolhera, parecia que antevia a ida da Cristina estudar para a universidade daquela linda cidade, a cidade dos estudantes, Coimbra, até o banho ele evitava, tornando-se escasso, por mais que eu insistisse para que o fizesse. Deixou de viver, passou a vegetar. Nem as visitas do doutor Alberto, que passaram a ser quase diárias, lhe davam ânimo. Deixara de ter notícias da sua menina e as poucas que tinha eram lacónicas e com muitas entrelinhas, e Miguel sabia muito bem interpretar essas entrelinhas, o que o deixava cada vez mais sombrio e abatido. O meu amor, o meu carinho, a minha paciência, a minha entrega, foram dele até ao último minuto. Tudo lhe dei, menos, trazer a nossa amada Cristina, de volta. Rodrigo, o nosso amado filho, veio e foi vezes sem conta, na tentativa de ver o pai voltar à vida normal, mas nada, nada mesmo o fazia viver. E, chegou o dia em que partiu. Partiu para nunca mais voltar. Fiquei só! Só, naquele casarão escolhido por nós e onde fomos felizes. A solidão, a tristeza, a saudade, a nostalgia começaram a ser a minha companhia diária. A Suzete esmerava-se na cozinha fazendo o que sabia que eu gostava mas nem assim, a vontade de comer chegava. O doutor Alberto ralhava comigo e aconselhava-me a deixar aquela casa por uns tempos, tentando desanuviar aqueles meus dias negros. Para mim, sair dali era como se o abandonasse e eu não queria que ele se sentisse abandonado pela mulher a quem amou e que o amou até ao fim da sua vida. Eu continuava a amá-lo, se calhar, até mais ainda. Não, não o iria deixar sozinho. A minha mente já delirava. A Suzete apercebeu-se do meu estado e telefonou ao doutor Alberto para que fosse lá a casa. Eu estava magra, abatida e ele começou por me dar um forte ralhete, de seguida, levou-me ao quarto de vestir onde já não entrava há algum tempo, para que me olhasse no espelho. Não me reconheci. Agarrei-me a ele a chorar compulsivamente, como ainda não tinha feito desde a partida de Miguel. Deitei para fora todo o meu sofrimento acumulado há anos, desde que a Cristina fora para a África. Gritei de raiva e de saudade. Falei palavras desconexas. Falei, gritei, chorei e o doutor Alberto permaneceu a meu lado, apenas ouvindo. Deixou-me libertar tudo o que estava acumulado dentro de mim, há muitos anos, muitos anos de sofrimento calado, para que o Miguel não notasse. Eu sofria tal como ele sofria. Quando me controlei um pouco, já tinha a meu lado a Suzete com um copo de água e um comprimido que o doutor lhe tinha dito para ir buscar ao armário dos medicamentos que foram do Miguel. Bebi a água e o comprimido seguiu pela garganta abaixo. Olhei-os com carinho e agradecimento. A Suzete era uma boa amiga que me acompanhava desde a infância. Foi para casa dos meus pais, para cuidar de mim, tinha eu cinco anos, e ela era também uma menina, com apenas quinze anos. Brincávamos juntas e tornamo-nos amigas inseparáveis. Quando casei ficou comigo, quando fui viver para a Figueira da Foz, levei-a comigo e esteve sempre a meu lado nos bons e nos maus momentos, até que também ela resolveu deixar-me. Voltando àquele dia, acalmei, relaxei e prometi a ambos, que me iria portar bem. Prometi e cumpri. Voltei a comer, a cuidar de mim e até voltei a passear pelo paredão junto ao mar. Rodrigo sempre que podia vinha a Portugal dar-me o conforto e o carinho que só um filho pode dar. Da Cristina, nunca mais tive notícias, por mais diligências que eu e o irmão tenhamos feito, nada soubemos. Doía, doía muito não saber o que se passava com a minha filha, como estava, o que lhe tinha acontecido, enfim, qualquer sinal dela, mas nada. Quantas vezes a Suzete foi dar comigo com os olhos rasos de água agarrada à nossa fotografia, aquela onde todos sorriamos felizes. A Suzete, sempre a minha guardiã. Há muito que a Suzete tinha um problema coronário que eu desconhecia, era mais um segredo entre ela e o doutor Alberto, não me diziam para não me apoquentarem. Por vezes eu notava-a abatida e cansada, mas quando a questionava ela limitava-se a dizer que era impressão minha, ou inventava algo que tinha feito de excesso, para justificar o cansaço. Eu acreditava, até um dia que ouvi um barulho estranho vindo do lado da cozinha e fui dar com ela caída no chão. De imediato telefonei para o doutro Alberto e de seguida para o 112. Cegaram quase ao mesmo tempo, mas já não havia nada a fazer, a Suzete tinha partido para sempre. Também a Suzete me tinha deixado sozinha. E agora? E agora? O doutor Alberto que até aqui tinha sido mais que um médico, um grande amigo, foi incansável e era raro o dia em que não passava lá por casa, entrava, sentava-se no “seu” cadeirão, pois há anos que era naquele e só naquele, que ele gostava de se sentar, e conversávamos de tudo e de todos, era uma forma de me fazer sentir que não estava só. Mas eu sentia que já não fazia sentido viver naquela casa, era demasiado passado para mim, guardava nela muitos momentos bons e maus; muitos sonhos realizados e outros desfeitos. Sentia que se ali continuasse ia deixar de viver e eu queria continuar a viver para poder conhecer o meu neto que vinha a caminho. O Rodrigo ia dar-me um neto. Tinha que sair dali. Melhor pensei, melhor o fiz. Contei a minha decisão ao doutor Alberto, que num abraço bem forte, me desejou toda a felicidade do mundo, com uma lágrima sentida, retribui aquele abraço ao homem, médico e amigo de muitos anos. No seu olhar senti um misto de alegria por mim e de saudade pela ausência de mim. Compreendi-o. Compreendemo-nos como sempre acontecera. Percorri toda a casa para escolher o que trazer comigo. Eram tantas as memórias que não caberiam num camião TIR, essas vieram no meu coração. Comigo trouxe a nossa foto, a foto em que todos sorriamos de felicidade. Fechei a porta e o portão. Agora, eis-me de chaves na mão, sem saber o que fazer, volto para este mundo que já foi meu, ou procuro outro lugar? Maria Antonieta Oliveira 12-11-2018

Memórias

À janela empoleirada, olho para a direita E ligeira, escorreita de canastra à cabeça Vem a varina subindo cantando a sua canção: “Ó freg...